quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Fechamento de igrejas em Angola tem como alvo denominações consideradas “seitas”

Após a aprovação do Decreto Lei conjunto nº 1/2018, de 4 de Outubro, assinado pelos Ministérios da Cultura, Administração do Território, Interior e Justiça e Direitos Humanos de Angola, até o momento mais de 2 mil igrejas já foram fechadas no país e outras mil consideradas irregulares ainda podem fechar até o final desse mês.

Segundo autoridades locais, no entanto, como o diretor da Cultura, Esportes, Hotelaria e Turismo, Gabriel Tchiema, o objetivo do decreto é impedir o funcionamento de denominações consideradas “seitas”, pois estariam praticando atividade religiosa ilegal, como a cobrança de valores aos fiéis até mesmo por oração.


Entre às denominações fechadas estão a Josafat e Mundial do Poder Deus. O próprio ministro, Gabriel Tchiema, congrega na Mundial, segundo informações do Jornal de Angola. Ele admitiu que a situação é constrangedora, mas reconheceu que “todos devem se sujeitar à lei”.

Manuela Patrícia, também membro da Igreja Mundial do Poder de Deus em Angola, lamentou o fechamento da instituição alegando que tomou um “banho de água fria”.

Apesar da frustração de alguns, o processo de encerramento das atividades religiosas consideradas “seitas” transcorre pacificamente e não há relato de conflito com o Governo.


Preocupação
A organização Portas Abertas, uma das maiores instituições de monitoramento da perseguição religiosa no mundo, emitiu um comunicado em 14 de novembro revelando certa preocupação com a situação em Angola.

Isso, porque, para determinar o que é ou não uma doutrina aceitável, legal ou ilegal, é necessário a intervenção do Estado na liberdade de culto dos cidadãos.

Mesmo se tratando de seitas, a liberdade religiosa implica, também, na possibilidade de existência delas, ficando a cargo das pessoas o discernimento quanto às práticas que seguem e acreditam ser úteis para suas vidas.

Todavia, uma vez que o Governo decide intervir, decidindo o que são práticas religiosas legais ou não, cria-se margem para a censura da liberdade de culto.

Assim, a Portas Abertas pediu para que os cristãos orem “…para que o governo mude de ideia com relação a esse assunto”, como também para “que as igrejas fechadas tenham sabedoria e que consigam se regularizar junto ao governo”.



Estranho né!

segunda-feira, 5 de março de 2018

Porque há uma guerra na Siria






Alguns fatos:

1. O que está acontecendo em Ghouta Oriental?


No último mês, o governo sírio e seus aliados intensificaram as ofensicas contra territórios controlados por grupos islâmicos e jihadistas, incluindo Ghouta Oriental, que é controlada pela oposição desde 2012.

O bastião rebelde perto de Damasco sofreu ao menos cinco dias consecutivos de bombardeios, que deixaram mais de 560 civis mortos.

Segundo a ONU, impressionantes 76% das residências de Ghouta Oriental foram devastadas, e boa parte dos 400 mil moradores do enclave se mudou para abrigos subterrâneos.

No domingo, uma criança morreu e outras 13 pessoas apresentaram sintomas - como dificuldades em respirar e tonturas - consistentes com os de um ataque de gás cloro, algo que o governo nega.
Não se trata da primeira acusação do tipo. Em agosto de 2013, o governo sírio foi acusado por potências ocidentais de disparar foguetes de sarin (composto químico que age no sistema nervoso) em Ghouta, Damasco, matando centenas de pessoas.

O presidente sírio, Bashar al-Assad, negou a acusação e culpou os rebeldes, mas concordou em destruir o arsenal químico da Síria. Apesar disso, a Organização pela Proibição de Armas Químicas continuou a reportar o uso de produtos químicos tóxicos em ataques no país.
A região vive também uma crise humanitária. Há restrição à entrada de ajuda humanitária, e produtos alimentícios básicos, como pão e arroz, estão sob forte pressão inflacionária. A desnutrição infantil alcançou níveis sem precedentes: 11,9% das crianças com menos de cinco anos estão subnutridas.

2. Quais os rumos da guerra?


A guerra civil, que se estende há quase sete anos, se intensificou no último mês, em uma tentativa de Damasco e seus aliados de sufocarem os grupos de oposição. Estima-se que hoje jihadistas controlem apenas 3% do território sírio.

A avaliação de alguns analistas é de que a essência do conflito - o levante contra Assad que evoluiu para uma guerra civil - talvez esteja perto do fim, uma vez que os rebeldes perderam território e apoio externo. E o grupo extremista autodenominado Estado Islâmico, que chegou a controlar parte importante da Síria e do Iraque, também foi derrotado na maioria dos locais, ainda que não totalmente eliminados.

No entanto, além do esgotamento por parte das próprias tropas governamentais, há ainda diferentes frentes de batalha em curso na Síria.

Um exemplo é Afrin, no noroeste do país, que sofreu intensos bombardeios turcos em janeiro - o objetivo da Turquia é conter a minoria curda do local. E, na fronteira sudoeste, Israel tem enfrentado diretamente forças iranianas e sírias, em mais uma evidência de como o conflito sírio evoluiu para uma "guerra por procuração" entre atores internacionais adversários entre si.

3. Qual era a situação na Síria antes da guerra - e o que levou ao conflito?


Antes do início do conflito, em 2011, muitos sírios se queixavam de um alto nível de desemprego, corrupção em larga escala, falta de liberdade política e repressão pelo governo Bashar al-Assad - que havia sucedido seu pai, Hafez, em 2000.

Em março de 2011, adolescentes que haviam pintado mensagens revolucionárias no muro de uma escola na cidade de Deraa, no sul do país, foram presos e torturados pelas forças de segurança.

O fato provocou protestos por mais liberdades no país, inspirados na Primavera Árabe - manifestações populares que naquele momento se estendiam pelos países árabes.

Quando as forças de segurança sírias abriram fogo contra os ativistas - matando vários deles -, as tensões se elevaram e mais gente saiu às ruas. Os manifestantes pediam a saída de Assad.

A resposta do governo foi sufocar as divergências, o que reforçou a determinação dos manifestantes. No fim de julho de 2011, centenas de milhares saíram às ruas em todo o país exigindo a saída de Assad.


4. Como começou a guerra civil?


À medida que os levantes da oposição aumentavam, a resposta violenta do regime se intensificava. Simpatizantes do grupo antigoverno começaram a pegar em armas - primeiro para se defender e depois para expulsar as forças de segurança de suas regiões.

Assad prometeu "esmagar" o que chamou de "terrorismo apoiado por estrangeiros" e restaurar o controle do Estado.

A violência rapidamente aumentou no país: grupos rebeldes se reuniram em centenas de brigadas para combater as forças oficiais e retomar o controle das cidades e vilarejos.

Em 2012, os enfrentamentos chegaram à capital, Damasco, e à segunda cidade do país, Aleppo.

O conflito já havia, então, se transformado em mais que uma batalha entre aqueles que apoiavam Assad e os que se opunham a ele - adquiriu contornos de guerra sectária entre a maioria sunita do país e xiitas alauítas, o braço do Islamismo a que pertence o presidente.
Isso arrastou as potências regionais e internacionais para o conflito, conferindo-lhe outra dimensão.

Em junho de 2013, as Nações Unidas informaram que o saldo de mortos já chegava a 90 mil pessoas.


5. Quem lutou contra quem?


A rebelião armada oposicionista mudou significativamente ao longo do conflito. Uma oposição moderada secular foi superada por radicais e jihadistas - partidários da "guerra santa" islâmica. Entre eles estão o autointitulado Estado Islâmico e a Frente Nusra, afiliada à al-Qaeda.

Os combatentes do EI - cujas táticas brutais chocaram o mundo - criaram uma "guerra dentro da guerra", enfrentando tanto os rebeldes da oposição moderada síria quanto os jihadistas da Frente Nusra. Hoje praticamente subjulgados em termos territoriais, os combatentes do EI continuam, no entanto, a promover ataques mais esporádicos.

Também combatem o Exército curdo, um dos grupos que os Estados Unidos chegaram a apoiar no norte da Síria, com bombardeios aéreos.

Já a Rússia lançou em 2015 uma campanha aérea com o fim de "estabilizar" o governo sírio após uma série de derrotas para a oposição.

A intervenção russa possibilitou vitórias significativas das forças sírias. A maior delas foi a retomada da cidade de Aleppo, um dos principais redutos dos grupos de oposição, em dezembro de 2016.


6. Por que a guerra está durando tanto?


Um fator-chave é a intervenção de potências regionais e internacionais.

O apoio militar, financeiro e político externo tanto para o governo quanto para a oposição tem contribuído diretamente para a continuidade e intensificação dos enfrentamentos, e transformado a Síria em campo para uma guerra indireta - ou "guerra por procuração".
A intervenção externa também é responsabilizada por fomentar o sectarismo no que costumava ser um Estado até então secular (imparcial em relação às questões religiosas).

As divisões entre a maioria sunita e a minoria alauita no poder alimentou atrocidades de ambas as partes, não apenas causando a perda de vidas, mas a destruição de comunidades, afastando a esperança de uma solução pacífica.


A escalada de terror causada por grupos jihadistas como o EI - que aproveitou a fragilidade do país para tomar o controle de vastas partes de território no norte e leste - acrescentou outra dimensão ao conflito.

7 Qual é o impacto da guerra?


O Centro Sírio para Pesquisa de Políticas calcula que o conflito já tenha causado a morte de mais de 470 mil pessoas, ainda que não haja cifras totalmente confiáveis a respeito.

Segundo a ONU, mais de 5 milhões de pessoas fugiram do país, em sua maioria mulheres e crianças, e metade da população foi de alguma forma deslocada pela guerra.

O êxodo de refugiados, um dos maiores da história recente, colocou sob pressão os países vizinhos - Líbano, Jordânia e Turquia.

Cerca de 10% deles buscam asilo na Europa, provocando divisões entre os países do bloco europeu sobre como dividir essas responsabilidades.
E as estatísticas terríveis não param por aí.

A ONU disse que são necessários US$ 3,2 bilhões para prover ajuda humanitária a 13,5 milhões de pessoas no país - incluindo 6 milhões de crianças.

Além disso, estimativas do ano passado apontavam que 70% da população não tinha acesso a água potável, uma em cada três pessoas não conseguia suprir as necessidades alimentares básicas, mais de 2 milhões de crianças não iam à escola e uma em cada cinco indivíduos vivia na pobreza.

As partes em conflito têm complicado ainda mais a situação ao recusar o acesso das agências humanitárias aos necessitados.

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